quarta-feira, 31 de outubro de 2007

TROPA DE ELITE - Osso duro de roer


O filme do diretor José Padilha, sobre a "rotina" do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) do Rio de Janeiro já levantou muita poeira e causou um bocado de polêmica. O que era para seguir um estilo de documentário, baseado (segundo Padilha, não é uma adaptação!) no livro "Elite da Tropa", de Luiz Eduardo Soares, acabou virando um sucesso e uma mania nacional! Mesmo com milhares de cópias "pirata" espalhadas antes da estréia, bateu recorde de bilheteria já no primeiro fim de semana de exibição! O que mostra que a "pirataria" ajuda na divulgação e não deve ser tratada de forma tão nociva — mas isso é assunto para outra oportunidade.

O enredo trata da guerra urbana carioca sob a ótica de um dos lados: o de um policial. E não reflete diretamente a realidade — esta é bem mais cruel — dos problemas de desaparelhamento e má remuneração da força policial, violência, abuso de poder, corrupção escancarada, tráfico de drogas, desigualdades sociais, métodos de tortura, etc.

Alguns críticos e antropólogos apontam uma visão "maniqueísta" da abordagem e, em alguns pontos, preconceituosa também. O filme incomoda porque mostra um pedaço das vísceras da nossa sociedade frente aos temores de profissionais que querem vencer de forma honesta, e os obstáculos que isso traz. A análise deve ser muito mais profunda, e esbarra no câncer da criminalidade impune alimentada pela inércia e/ou incapacidade de governantes e "homens da lei".

Não sou adepto da tortura, tampouco de métodos ortodoxos de cerceamento da bandidagem; por outro lado, quando o "outro lado" não respeita, renitentemente, nenhum direito do cidadão comum (entenda-se aí eu, você e os demais), certamente merece uma correção mais severa. E, se você pensar bem, "osso duro de roer" não é o BOPE, com suas atitudes radicais e sua violência quase sem limites; é ver a insegurança instalada no cotidiano, é saber que pessoas inocentes morrem por causa de vinganças injustificáveis ou de balas perdidas, é ver o filho do seu amigo ou vizinho morrendo "a prestação" por conta das drogas, é o esforço desmedido que pessoas simples fazem para serem "do bem"... pressionadas pelo "lixo da sociedade" que insiste em ser "do mal". Isso, sim, é duro de roer.

De qualquer forma, é bom deixar clara a minha visão: o cap. Nascimento não é herói, nem todo favelado é bandido, nem todo policial é corrupto, nem todo universitário é viciado, nem todas as ações do BOPE dão certo, nem toda tortura é solução! As personificações do filme são caricatas, estigmatizadas em demasia para chamar a atenção sobre os problemas... Se ninguém fizer assim, como vamos tomar conhecimento? Portanto, se você não viu, vá ver. É um ótimo filme! E responda a enquete aí ao lado...

(*) maniqueísmo - corrente de pensamento sincretista, instituída por Maniou Maniqueu (séc III), que defende a idéia de que o Universo é dividido em dois lados que combatem constantemente: o "bem", ou Deus, e o "mal", ou diabo.


segunda-feira, 29 de outubro de 2007

PASSEI DOS 40... (1/12)

Escrevi este texto em dez/2004.
Aos poucos, fui fazendo algumas mudanças, correções, atualizações.
Creio que vale a pena tê-lo aqui para que você me conheça mais.

-- ele foi especificamente postado em forma inversa, para facilitar a leitura.

Passei dos 40 anos de idade. É engraçado que, com o passar dos primeiros dias ou semanas, a gente sente que tudo aquilo que as pessoas "mais velhas" nos diziam é a mais absoluta verdade! Seria ótimo ter o corpo dos 20 e poucos anos com a cabeça de hoje.

Por vezes temos a impressão nítida que, daqui pra frente, começamos a "descer a serra"; o corpo pesa mais, as articulações não respondem tão bem como há alguns anos, os cabelos brancos se tornam mais visíveis, e algumas pessoas começam a lhe tratar regularmente por "senhor". Eu me sinto agradecido a Deus por ter chegado com saúde até aqui; e peço a Ele que eu possa viver, pelo menos, mais o mesmo tanto de anos...

PASSEI DOS 40... (2/12)

Parte 1/12
Vim ao mundo no mesmo dia em que pessoas famosas como o Almirante Tamandaré, o rei do baião Luiz Gonzaga, e a escritora/poetisa Adélia Prado. E num mês repleto de celebridades; em dias próximos também nasceram: Frank Sinatra, Walt Disney, Dionne Warwick, Dom Pedro II, Sílvio Santos, Emerson Fittipaldi, Clarice Lispector, Chico Mendes, Jorge Dória, Gustave Flaubert, Noel Rosa, Michel de Nostradamus, Woody Allen, Eva Wilma, Jane Birkin, Lee Remick, Camille Claudel, Florbela Espanca, J Silvestre, Sargentelli, Sammy Davis Jr, Ozzy Osbourne, David Carradine, Daryl Hannah, Jim Morrison, Kim Basinger, Khalil Gibran, José Carreras, Ludwig van Beethoven, Olavo Bilac, Arthur C Clarke, Jim Morrison, Liv Ullmann, Érico Veríssimo, Adolfo Lutz, Keith Richards, Roberto Marinho, Oscar Niemeyer, Cássia Eller, Steven Spielberg, Christina Aguilera, Vanessa Hudgens, Brad Pitt, Britney Spears, Edith Piaf, e por aí vai. Dá pra perceber que, neste período do ano, só nasce gente inteligente, talentosa, bonita... e modesta, né?

Eu me sinto um privilegiado! Nasci na mesma época que os Beatles e os Rolling Stones despontaram para o sucesso; a TV Globo surgiu meses depois. Vivi, sem me aperceber de nada, os primeiros tempos do regime militar com muita tranqüilidade — talvez porque eu fosse pequeno demais, ou porque aquilo não me atingia, uma vez que meu pai era militar... eu estava "do lado da força"!

Ouvi meus pais cantarolando músicas como "A banda" e "Disparada" — era a época dos Festivais da MPB em 67/68. Vi o homem chegar a Lua em 1969 - uma imagem péssima numa TV Semp em preto e branco. Brinquei de vareta, de futebol de botão e boliche (de carretéis de linha) com meu pai. Ouvi, pela radiola antiga, os jogos da vitória do Brasil na Copa de 70 — e aprendi a gostar de futebol, mas só dos grandes jogos.

PASSEI DOS 40... (3/12)

Parte 2/12
Início - 1/12

Não terminei o pré-primário... nem mesmo comecei o 1º ano! Com 5 anos, eu lia e escrevia corretamente. Essa habilidade me levou a protagonizar uma peça onde eu era um chinês, com direito a quimono estampado, chapéu de forma cônica, maquiagem com olhos puxados, e várias páginas de texto decorado! Minha mãe se desdobrou com o figurino; meu pai também estava lá, registrando tudo. Sucesso total! E eu me senti agraciado por todos.

Mas a professora dizia que eu "atrapalhava" as outras crianças. E a diretora da escola achou melhor me transferir do pré para o 1º ano, no meio do ano! Quando fui "colar grau" do pré, eu já tinha passado direto para o 2º ano — aquilo foi muito estranho para mim.

Aprendi a datilografar com 6 anos — tínhamos 2 Olivetti e 1 Remington em casa. Meu pai cuidava da contabilidade de seus clientes, minha mãe escriturava os livros fiscais, e eu datilografava mensalmente os balancetes (com todo cuidado, porque eu não podia errar), e as RAIS, todo início de ano. Foi assim durante um bom tempo.

Aprendi a desfrutar da beleza da música clássica — Beethoven, Mozart, Bach, Chopin, Brahms, Vivaldi — por influência paterna. Mas eu sabia que existiam uns cabeludos que atendiam pelo nome de Beatles e gostava das músicas deles, já tinha ouvido Janis Joplin e Jimi Hendrix no rádio, e sabia da repercussão causada por um certo festival Woodstock e por uma ópera pop chamada "Jesus Cristo Superstar".

Eu vivi o "milagre econômico" do governo Médici! Que maravilha era desejar aquela imensa quantidade de brinquedos importados - e ter a chance de brincar com alguns, sempre de colegas... porque o meu pai não podia comprá-los para mim. Acompanhei a crise do petróleo em 1973 — mas não diziam que "o petróleo era nosso"? Por que tanto receio daqueles árabes?

Fiquei encantado ao ver uma TV em cores! Uma vez, andando no centro da cidade com meu pai, vi uma TV ligada e corri para contar à minha irmã de que cor eram as roupas do Batman e do Robin. Assisti a shows, pela TV, de Alice Cooper e dos Secos e Molhados — por que eles se pintavam tanto e eram tão performáticos? Será que eram só "personagens", como eu tinha feito na peça?

PASSEI DOS 40... (4/12)

Parte 3/12
Início - 1/12

Assisti os filmes do Roberto Carlos na TV, e fazia tudo pra não perder os Três Patetas, Zorro, Perdidos no Espaço e Rin-tin-tin; minha irmã preferia ver Túnel do Tempo e Terra de Gigantes, enquanto meu pai gostava mais de Bonanza e Bat Masterson. Eu cantei "debaixo dos caracóis dos seus cabelos", do Roberto, e "sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos", do Caetano.

Vi a primeira versão de Vila Sésamo, com Garibaldo, Gugu, Ênio e Beto (vai ver que é por isso que eu gosto tanto de biscoooooitos). Eu assisti o primeiro Fantástico! E não perdia por nada "Os 4 bonecos músicos de Bremen". E eu gostava das entrevistas do Hélio Costa. Eu vi Uri Geller entortar garfos na TV! Assistia Flávio Cavalcânti quando ele não "mandava retirar as crianças da sala"! Adorava também ver a Pantera Cor-de-rosa. Nem prestei muita atenção nas Olimpíadas de 72 e no assassinato dos atletas em Israel; mas gostava de deitar na rede e ouvir os programas de rádio AM à tarde. Toda semana ou quinzena (não me lembro) meu pai trazia uma revista Recreio nova! Sempre tinha coisas para cortar e montar — eu achava o máximo... e passava horas brincando.

Eu tinha enciclopédias em casa, e curso de inglês em disquinhos compactos. Meus vizinhos vinham pedir ajuda quando tinham pesquisas escolares para fazer. Regularmente, eu lia alguma coisa nas revistas Manchete e O Cruzeiro, geralmente, no barbeiro — por hábito do meu pai, meu cabelo era cortado a cada 2 semanas, junto com o dele! Tênis? Jeans? Cueca Zorba? Que nada! Era sapato social, calça de tergal (feita em alfaiate) e cuequinha samba-canção... tudo nos mesmos moldes do meu velho pai! E eu achava normal... mas, todo mundo na minha rua me achava "diferente", esquisito.

Enquanto meus vizinhos tinham carrinhos de rolemã, eu tinha uma patinete azul, toda de metal, com pneus e freio! Eles jogavam bola no "Bananal" mas meu pai não costumava deixar eu ir com eles — e eu acabei virando um "perna-de pau"! Eu vi o Brasil deixar de ganhar a Copa de 74. Mas as minhas atenções eram para os times locais desde antes do Brasil ganhar o tri. em 1970. E adotei o Cruzeiro como meu time — com Raul, Tostão, Piazza e outros mais — e tinha até um pôster do campeão na parede do meu quarto. Os filhos dos vizinhos soltavam papagaio; eu ficava em casa lendo e me distraindo com experiências químico-físicas de uma coleção chamada "Os cientistas" — quando as substâncias ou os procedimentos eram mais perigosos, meu pai fazia junto comigo. Eu me sentia uma criança feliz!